NOS ANOS 80 ERA DIFÍCIL IMAGINAR O MUNDO SEM A TELEVISÃO DE TUBO OU MESMO O TELEFONE COM FIO.

Hoje, não é fácil imaginar como viveríamos sem os aplicativos e toda a tecnologia de ponta que nos cerca. Como você acha que as pessoas em 2030 olharão para esses dias que estamos vivendo?

Gerações conflitantes: afinidades e distâncias entre as diferentes idades na rede

Quem nunca ouviu falar do famoso “conflito de gerações”? Na cabeça da maioria das pessoas, a relação entre jovens e velhos não poderia deixar de ser marcada pelo abismo da diferença de idades. Os tempos vividos por cada um dos lados sempre pareceram incompatíveis e as linguagens dissonantes. O que dizer então de um relacionamento entre pessoas com idades muito diferentes? Coitadas dessas pessoas, pois os comentários sempre foram – e continuam sendo – bastante ofensivos e desrespeitosos.

“As pessoas estão dependendo cada vez mais desses aplicativos para a comunicação.”

(Dra. Sylvia Van Enck, psicóloga)

Mas será mesmo que jovens e velhos continuam assim tão distantes? A geração da internet parece inaugurar um novo paradigma ao ter diante de seus dedos a possibilidade de contato e interação com incontáveis pessoas das mais diferentes idades. O movimento parece ser o seguinte: os mais novos descobrem uma rede social ou um aplicativo e lá fazem a sua experiência e a popularizam, abrindo espaço para que os “menos antenados” participem. Na sequência surge uma nova plataforma e lá vão os mais novos repetir o ciclo. O contato, portanto, torna-se realmente inevitável.

 

 

 

 

A tendência é de que o abismo entre as gerações passadas vá sumindo consistentemente com o passar dos próximos anos. Com o passar do tempo, camadas cada vez mais numerosas de pessoas das mais diferentes gerações tomam contato e se familiarizam com as múltiplas interfaces da tecnologia das redes. No futuro, é esperado que esse abismo simplesmente não exista mais. Quando os jovens que hoje têm seus vinte e poucos anos chegarem aos setenta, o mundo provavelmente terá como uma das suas grandes diferenças com o atual justamente a integração entre novos e velhos. A tecnologia está unindo aquilo que o tempo até hoje insistia em querer afastar.

“Mas o centro é aquilo, ninguém vive no centro. A gente nasceu aqui e ninguém cresce no centro…”

(Maria Lurdes, artesã e mãe do Ricardo)

Se vai mentir, mente direto

Relacionamentos não são tarefas fáceis, exige diálogo, empatia e reciprocidade, seja a intenção dele qual for: amoroso, sexual ou de amizade. A cada ano que passa a tecnologia tem ajudado a estreitar e distanciar as relações humanas. Tudo pode depender da intenção e caráter de quem utiliza essas ferramentas, pois nesse universo podemos ser ingênuos ou mentirosos.

“No aplicativo você é um personagem, que encarna o seu lado sociável, disposta a conhecer pessoas, você não é como no seu dia a dia, você cria um personagem melhor do que você acredita que é.”

(Bárbara Medeiros, jornalista)

Durante os últimos cinco anos vemos crescer a cultura do multiuso dos smartphones, e os aplicativos são uma constatação de que hoje temos a resposta da maioria de nossas necessidades na palma da mão. Conhecer alguém exige se expor e as vezes isso não é tão fácil quanto um click. A preocupação de como os outros vão lhe enxergar sempre esteve ligada ao fato de iniciar um relacionamento, seja ele romântico ou sexual, entra em jogo sua autoestima, confiança e suas intenções. Seja a mentira ou omissão usadas para impressionar ou para evitar desentendimentos, dependendo da dosagem pode prejudicar o encontro quando ele parte para a vida real.

 

Em 1º de abril de 2016, dia da mentira, a empresa que também embarcou na era dos aplicativos, a Par Perfeito, lançou uma pesquisa com quatro mil usuários de seus serviços, em que a maioria diz não mentir, mas admitem que utilizam de “mentirinhas inofensivas”. Ser inofensivo ou não, vai depender de quem estiver teclando do outro lado, o papo pode fluir naturalmente ou o encontro pode ser decepcionante.

“Já tive uma decepção, quando achei que o cara era legal, porque ele tinha se declarado pró-feminismo, disse que havia estudado coisas do tipo, que tinha lido sobre isso, porém no encontro ele não sabia nem do que estava falando. Ele simplesmente entendeu mais ou menos como sou e se adaptou a isso para me atingir”

(Angela Leite, professora)

GHOSTING

Desaparecer completamente, sem vestígios ou qualquer forma de ser encontrado novamente. Deixar de existir de uma hora pra outra. Abandonar um relacionamento assim, desse jeito. Sem espaço para choros, abraços e despedidas. Nem um “até breve” encontra sua chance. É game over.

 

O termo “ghosting” não é recente, mas está cada vez mais no vocabulário das interações virtuais. Esqueça caixas cheias de cartas e bilhetinhos amorosos. Apagar os vestígios daquilo que era uma história apaixonada não passa mais por longas e exaustivas faxinas no quarto. Basta arrastar tudo para a lixeira do smartphone, bloquear das redes sociais e pronto. É prático, é impessoal, é rápido...mas não deixa nem de longe de ser (bastante) traumático e doloroso. O que houve de errado? Nem uma conversa de esclarecimento? Olho no olho? Esqueça. Quando se apela ao ghosting, nenhuma dúvida é equacionada. As conclusões são suas, assim como a disposição de se meter com aquela pessoa também passou - ou deveria ter passado – pelo seu livre arbítrio.

 

A reação mais óbvia a esse tipo de fenômeno é a da indignação. “Isso é um absurdo”, “covardia”, “falta de caráter”, “esse mundo está perdido”. Bom, o ghosting realmente é algo bastante incômodo. No entanto, quantas das nossas relações e interações cotidianas não são completamente impessoais e frias? Aquela voz que nos atende ao telefone para cancelar um serviço. A telefonista da pizzaria virou aplicativo. O agente de viagens, a professora de inglês, o paisagista. Tudo está ao alcance do touch.

 

O grupo da família no WhatsApp, o da turma da faculdade no Facebook...o solo das interações é cada vez menos palpável. Julgamentos são esperados e até mesmo bem vindos. É fundamental refletir sobre essas mudanças cruciais pelas quais estamos passando. Contudo, parece ser muito pouco efetivo lutar contra. Queiramos ou não, o velho mantra de “comer, rezar e amar” já foi substituído - e é importante nos acostumarmos a isso – pela trindade “curtir, comentar e compartilhar”.

A BUSCA POR SEXO É O PRINCIPAL MOTIVADOR DOS APPS,

o modo como fazemos sexo com pessoas que conhecemos através dos dispositivos é diferente do sexo conquistado pelos métodos não virtuais de abordagem?

Apps de encontros e solidariedade feminina

Netos do disque-amizade e filhos dos sites de encontro, os aplicativos de relacionamento prometem ajudar a achar tanto sua metade da laranja quanto um coberto de orelha de uma noite. No catálogo de rostos e corpos (mais ou menos aleatório, dependendo do app), abre-se a possibilidade de escapar aos olhos curiosos de pessoas conhecidas, de sair do círculo de amizades, conhecer alguém diferente, de ter sexo casual e de até experimentar umas práticas diferentes. Pras mulheres, os aplicativos, em teoria, promovem a possibilidade de fugir, pelo menos temporariamente, do controle social sobre seus corpos. Ninguém vai saber se ela saiu ou se não saiu, se deu ou se não deu, se foi no primeiro encontro ou no segundo, se tomou ou não a iniciativa, se tá dando pra todo mundo ou se tá pegando geral... É, em 2016 a mulherada ainda está rodeada de fiscais da moral e dos bons costumes, prontos apontar o dedo na cara na primeira oportunidade. Como se a gente não pudesse só querer ter uma noite gostosa e tivesse que, sempre, estar engolindo sapos, na busca desesperada por beijar um príncipe encantado. Essa discrição proporcionada pelos apps pode ajudar a evitar um pouco de dor de cabeça com o machismo de todo dia. É de indignar, e muito, mas às vezes a pressão – e a violência – é tanta, que resistir ao estigma da prostituição sendo dona do seu corpo – ao estilo da Gaiola das Popozudas, por exemplo - vira um privilégio.

 

Agora, além disso, imagina um encontro às cegas, com uma pessoa desconhecida, que você só viu por foto e falou pela internet? Razão pra ter medo? Infelizmente sim, sobretudo se você for mulher e hétero – lésbicas também estão expostas a alguns riscos desse tipo, embora menores que as héteras. Já as mulheres trans estão expostas a estes e a outros riscos, infelizmente. Esse mesmo “segredo”, que te dispersa na multidão de pessoas desconhecidas e dá a sensação de segurança, traz junto o medo de não saber quem é que vai estar do outro lado. Muitas das minas que usam esse tipo de aplicativo avisam ao menos uma amiga quando vão ter o primeiro encontro com um desconhecido. Marcar encontros em lugares públicos bem movimentados é de praxe. Tem quem dê o endereço e às vezes até o telefone do cara com quem vai encontrar, além de ter as estratégias mais malucas pra escapar de um encontro frustrante ou assustador. Levar um cara que acabou de conhecer pra casa, está praticamente fora de cogitação! Se o cara resolver te atormentar, a tua casa deixa de ser um lugar secreto e seguro. Sem chance! As mulheres evitam ir pra casa de um cara antes de tomar uma cervejinha, num lugar bem movimentado, e conversar bastante. Como diz a canção de Ellen Oléria: “A mulherada já sabe o cotidiano da rua: Anoiteceu? Sozinha, você não tá segura.”. Enquanto isso, muitos caras parecem não ter problema nenhum em levar uma desconhecida da internet de cara já pra dentro de casa...

“Vai cuidar da sua vidinha e para de achar que mulher que passa na rua quer ouvir suas merdas.”

(Larissa Mendes, estudante)

 

AS MULHERES TÊM MEDO. DE QUÊ TÊM MEDO?

 

O Brasil está em 7º lugar no ranking mundial de países com os maiores índices de violência contra a mulher1. Nas ruas, longe dos aplicativos, as abordagens masculinas são constantes, incisivas e muitas vezes violentas. São assovios, comentários sobre a sua aparência, sobre a beleza de um sorriso, ou sobre a falta de sorriso, encoxada no transporte, cabelo puxado e beijo forçado em festa. Você aprende a estar na defensiva o tempo todo, a ter medo o tempo todo, e de que é inseguro sair de casa à noite. Num mundo onde as mulheres parecem viver com o alarme ligado 24 horas, pra escapar de investidas inoportunas ou violentas, sair com um desconhecido parece quase extraordinariamente corajoso, olhando assim de longe. Isso torna certas alianças entre mulheres ainda mais interessantes. Avisar uma amiga quando sai e quando volta, ter ajuda quando faz um perfil ou quando dá um like no perfil de alguém. Falar sobre uma conversa que parece estranha, pedir opinião pra alguém que tem o mesmo sentimento, as mesmas desconfianças... “A Palene, minha amiga, é uma que sempre mantinha informada quando marcava algum encontro, falava que estava saindo com tal cara e se fosse esquisito avisava”, comenta a jornalista Bárbara, uma das nossas entrevistadas. São estratégias que fortalecem a amizade entre mulheres e criam uma rede de proteção praquelas que querem ser donas de si, se descobrir nessas aventuras afetivas e sexuais, sair pra tomar uma cerveja, encontrar gente, transar sem compromisso, andar por aí “de boa”, a despeito dos fiscais da moralidade.

a cada 1H30

uma mulher é assassinada por um homem no Brasil

50 mil

homicídios motivados por misoginia, entre 2001 e 2011

61%

das vítimas de feminicídios são mulheres negras

86%

das mulheres brasileiras sofreram assédio em público

FIM

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elenco principal ANTÔNIO VERGNE, JOSÉ PAULO DA ROCHA, LUANNA DE OLIVEIRA, ZECA MALLEMBAH, NADIR CHERUBINI, JÚLIA SELENA e DENNISE MORAES elenco SAMUEL CHAGAS, VENICE SANTANA, LISSA CARDOSO, RICHARD WEASLEY e RICARDO COSTA entrevistados ANA CAROLINA, ÂNGELA LEITE, BRUNO PETTERSON, DRA. SYLVIA VAN, GIOVANI RUFINO, GRAZIELLA BARBOSA, GÍSSICA RODRIGUES, IGOR FRABRICIO, LUIZ PAULO, MARIE COSNARD e RAFAEL DUARTE

argumento e produção coletiva DEH COUTINHO, ESCOBAR FRANELAS, LICO CARDOSO, PEDRO MAIA, ROBERTO MATY e SHIS OLIVEIRA roteiro e direção PEDRO MAIA e ROBERTO MATY produção e produção executiva LICO CARDOSO produção de set EDIH MOREIRA assistente de produção de set THABATA VECCHIO direção de fotografia ALLAN CUNHA assistente de câmera ÂNGELO SILVA eletricista chefe JONAS PASCINI e MATHEUS ACACIO making of RODRIGO NOBRE still AMAURY RODRIGUES e DANIELA SOLEDADE som direto ESCOBAR FRANELAS e THAIS LI figurino BINHO OLIVEIRA cabelo e maquiagem LAINY RIBEIRO, JOSÉ PAULO DA ROCHA e VIVI MOREIRA montagem e finalização PEDRO MAIA montagem LICO CARDOSO edição e mixagem de som MATHEUS JERONYMO vfx VICTOR CAMIZA e RODRIGO SOBREIRA correção de cor MAÍSA JOANNI designer gráfico GIOVANI RUFINO textos MATHEUS TREVISAN, PEDRO MAIA, ROBERTO MATY e SHIS OLIVEIRA